domingo, outubro 19, 2014

Houston, temos um grave problema: a liberdade de expressão está em jogo!

Sim, é isto mesmo, e tem a ver com as liberdades dos transgêneros e o uso de banheiros!

A prefeita (sim, o substantivo tem dois gêneros, presidente, não) homossexual da cidade de Houston, Texas, um dos estados mais conservadores dos EUA, em plena democracia, emitiu junto com a advocacia da cidade, ainda na fase preliminar de um processo, uma intimação para que 5 pastores da cidade entregassem comunicações internas das igrejas, incluindo sermões que citassem "prefeito", "homossexualidade", "referendo" e etc. Isso em meio a uma luta contra uma nova lei "anti-discriminação", aprovada pelo City Council . Diante da "grita geral" por toda a nação, os advogados mudaram a intimação e retiraram 'sermões', mas colocaram 'discursos' no local. A Aliança de Defesa da Liberdade entrou no caso.

O fato: Essa nova lei, chamada de HERO (Houston Equal Rights Ordinance - são 36 páginas) inclui muitos itens, entre eles, o que se destaca, em nome da não discriminação, o uso de banheiros pelos transgêneros de acordo com suas preferências (em todos os prédios públicos e empresas, excluindo alguns casos, como associações religiosas). Imagine a situação: o marmanjo vestido de mulher, em nome da não discriminação, tem o direito de entrar no banheiro que sua esposa e filhas estão usando.A realidade nua e crua, ou trasvestida, é essa.

Diante disso o "Conselho de Pastores" da cidade entrou com uma petição para que tal lei, aprovada pelo City Council (6 votos a 5!) seja trazida a voto popular (este é um mecanismo na lei dos EUA, semelhante a um plebiscito, requerido por demanda popular - lá é chamada de referendo - me perdoem os conhecedores profundos das leis por lá, se erro nos detalhes). Foram recolhidas as assinaturas mas os advogados da cidade afirmam que muitas assinaturas são invalidas por várias razões e o pedido foi indeferido.

Discordando da situação, o conselho entrou com uma demanda judicial contra a decisão e agora acontece a fase de descoberta do processo. É nesse estágio que as intimações foram expedidas. O problema é que há ai uma violação séria de direitos, e o imbróglio está feito!

A questão que se levanta é a seguinte: qual o intento das intimações? Duas podem ser as respostas, que, a meu ver, esbarram no mesmo problema: liberdade de expressão! Uma porque querem averiguar se os pastores influenciaram nas decisões e assinaturas dos membros das igrejas. O que se entende do debate, comunicados e mídias sociais é que se os pastores influenciaram na decisão das assinaturas dos fieis, não deveriam fazer isto. É isso mesmo? Líder religioso não pode ter opinião política ou não expressá-la? A outra, pura intimidação mesmo. Assim como querem no Brasil, nos EUA já existem leis famigeradas, semelhantes ao PLC 122. Este pedido não passaria de um ato intimidador, digno de uma ditadura. E qual a razão de não se querer que a questão chegue a voto popular? Porque, quase certo, iriam perder, como já aconteceu em duas vezes anteriores, quando leis de teor semelhante foram submetidas ao voto popular. Mas, neste caso, quem se importa com o que a população quer? Vale o voto da minoria engajada que, em nome de seus direitos, quer tirar o direito dos demais. E tem mais, depois do imbróglio feito, isto vira guerra religiosa, colocando a população em geral, contra os religiosos, tática que é usada o tempo inteiro na politica brasileira. A proposta no Brasil ainda torna-se mais perigosa, pois, por decreto da presidência (ou seria presidância?) da república, uma questão como essa passaria por um "conselho popular", totalmente aparelhado, legitimando o ato e o discurso. Já vejo até a frase de efeito: "isto foi amplamente debatido nos conselhos populares, que representam a população por meio dos interessados".

Agora, pensemos: com projetos de lei como o infame PLC 122 (o movimento tem até um site que lista os amigos e inimigos), quão rapidamente estariam investigando pregações e entrando na justiça contra pastores, padres e outros religiosos de origem conservadora que acreditam que a homossexualidade é pecado? Se hoje o processo de intimidação já é presente, imagine depois! Por sinal, estes pastores podem acabar na cadeia, e isto delicia a muitos anti-religiosos! Espero os comentários raivosos, mas não garanto que os publicarei, até que uma lei me obrigue e a intimidação comece!

Para pesquisar direto na rede, digite Houston, Mayor, Subpoenas e encontrará muitas fontes.

(http://time.com/3514166/houston-pastors-sermons-subpoenaed/)

terça-feira, outubro 14, 2014

In Memoriam – Márcio Antonio de Andrade Coelho Gueiros

Morreu meu amigo, meu companheiro de juventude, o irmão de sangue que eu não tive: Márcio Gueiros. Guerreiro, lutador, esposo fiel, pai dedicado, avô derretido, sobretudo, crente firme em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Crescemos juntos; ele, uns poucos anos mais velho do que eu. Amizade forjada ao longo de vários anos em várias atividades da Igreja Presbiteriana do Recife. Desfrutei também da amizade e companheirismo de todos os seus muitos irmãos e irmãs e, especialmente, do apreço dos seus pais, hoje igualmente morando com o Senhor. Naquele lar, cheio de vida e que exalava o amor, na Rua Carneiro Vilela, 48, no bairro do Espinheiro, passei muitos fins de semana agradáveis e fui regiamente alimentado em uma mesa que somente não era maior do que o coração dos que estavam ao seu redor.

Todos os jovens daquela casa se destacavam em seus estudos e Márcio era primeiro entre os primeiros, em suas classes. Escolheu a medicina e fez um brilhante curso. Em uma era na qual os médicos eram poucos, muito procurados e bem remunerados, poderia ter ficado rico rapidamente. Em vez disso abraçou a carreira muito mais como um sacerdócio e uma missão – uma extensão de sua fé.

Escolheu a pediatria. Cuidou de incontáveis crianças, entre elas todos os meus quatro filhos. Durante vários anos envolveu-se até o âmago no atendimento de crianças carentes no IMIP (originalmente, Instituto Materno-Infantil de Pernambuco). Ali superou dificuldades estruturais, mas, sobretudo, embalou sua competência médica e cirúrgica no amor que permeava suas palavras e atitudes. Sua sensibilidade cristã fazia com que enxergasse muito além das necessidades físicas dos pequeninos.

Lembro-me como me contou, certa vez, sobre criancinhas que ali chegavam chorando muito, mal nutridas e, principalmente, negligenciadas e carentes de amor. Ela chamava uma enfermeira “de grande porte” e, como parte da terapia, fazia com que ela as segurasse e as abraçasse por um bom tempo. E aí, ele abria seu sorriso largo e expansivo e exclamava: “É impressionante como elas se aquietam só com aquele toque, e como isso auxilia na recuperação”.

Profissionalmente avançou vários degraus e deixou exemplo a ser seguido – mas sempre com intensa modéstia – quer como pesquisador de laboratório de renome, docente da Universidade Federal de Pernambuco, ou em suas atividades em órgãos públicos, ou em sua clínica particular.

Depois de um casamento abençoado com a Stela, juntos criaram uma linda família, que hoje honram o pai com suas vidas. Nessa família, emulou com perfeição o ambiente de amor respeito e temor a Deus, que havia observado e desfrutado de seus pais. O amor e a fidelidade presentes no seu lar sempre impressionaram a muitos e dão testemunho das misericórdias e da graça do Deus Soberano que são derramadas sobre os filhos dos filhos.

Mas o que mais me tocou, nos últimos 25 a 30 anos, quando tive que me distanciar geograficamente da minha cidade natal, foi a intensificação de nossa amizade e de seu cuidado para comigo e para com os meus pais e familiares. Sempre mantivemos contato e cultivamos nossa aproximação espiritual. Era uma amizade saboreada vagarosamente e com cuidado, por ser uma iguaria rara. Na minha ausência forçada, a sua presença perene era um bálsamo restaurador na vida dos meus pais. 

Cuidou de mim e aconselhou-me em minhas enfermidades; cuidou de parentes muito chegados meus, até ser chegada a hora apontada por Deus; esteve presente, como um filho, nas horas de maiores necessidades nas internações do meu pai. Aconselhou, receitou, se esmerou e, acima de tudo, amou. E assim, todo nosso amor por ele e por sua família, nunca chegará a uma fração do que ele representou para nós.

Partiu hoje. Deixa saudades: do seu jeito simples de ser, do seu sorriso, de sua intensidade e convicções profundas, do seu desprendimento, do seu exemplo. Conforta-nos saber que está nos braços do seu SENHOR e SALVADOR, onde não há sofrimento, nem dor, nem choro. Que Deus console a querida família, que consideramos nossa também.

Provérbios 17:17 - Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão.

Solano Portela

sexta-feira, outubro 10, 2014

Casamento Gay e a Revolução Sexual dos Judeus

A Folha de São Paulo de 06.10.2014 informa, em grande manchete, que a “Suprema Corte dos EUA abre caminha para casamento Gay em Cinco Estados”. No texto da notícia, a notícia de que apelos advindos de Virginia, Okhlahoma, Utah, Wiscosin e Indiana, para que suas leis fossem mantidas, contra decisões de tribunais federais, foram rejeitados pela corte maior daquele país. Estas decisões vinham respaldando a união entre pessoas do mesmo sexo, mesmo contra as leis estaduais, que proibiam “casamentos” gays, atendendo a apelos de indivíduos e organizações. Os tribunais federais vinham julgando contra as legislações estaduais, considerando estas inconstitucionais.  Outros seis estados, que atualmente proíbem essas uniões, caminham para julgamentos na mesma direção. Serão obrigados pela Corte Suprema, a aceitarem o “casamento” gay, fazendo com que o total de estados norte-americanos, nos quais a união entre pessoas do mesmo sexo é permitida, chegue a 30, dentre os 50 daquele país.

O Blog Break Point, de hoje, traz um texto já de alguns anos, do Charles Colson, no qual ele aponta o conceito revolucionário do judaísmo e do cristianismo sobre o ethos sexual das civilizações. Indicando que “aqueles que esquecem a história estão fadados a repetirem os seus erros”, o Blog relembra faz referência aos comentários do Colson, do qual transcrevemos algumas partes essenciais. Diz ele:

Com frequência ouvimos que permitir que dois homens ou duas mulheres se casem não prejudica ninguém e nem afetam pessoas que são heterossexuais. A verdade é que sabemos o que acontece com uma sociedade promove a licenciosidade sexual e desvaloriza a instituição do casamento. Temos apenas que examinar a história.
Alguns anos atrás, antes que houvesse todo esse falatório sobre o “casamento gay”, um comentarista que possuí um programa no rádio e é também um teólogo do judaísmo, Dennis Prager (1948 - ), escreveu um artigo fascinante chamado – prepare-se para o título: “A Revolução Sexual do Judaismo: Por que o Judaísmo Rejeitou a Homossexualidade”.
Antes que os judeus estivessem situados no antigo Oriente Próximo o mundo pagão já apresentava uma dissociação social libertina, na qual imperava a livre sexualidade, em todos os sentidos, degradando mulheres e crianças, colocando a própria religião a serviço da lascívia masculina. Todos os aspectos da vida tinham conotação sexual. Os deuses pagãos se envolviam em atividades sexuais sem fronteiras, e o povo seguia no mesmo trilho. A homossexualidade tinha praticamente aceitação plena no mundo antigo.
Mas o ponto chave não era gênero, mas poder. Dennis Prager cita a filósofa Martha Nussbaum, que escreveu: “A distinção principal na moralidade sexual da antiguidade era... entre os papéis passivos e ativos”. Considerando que meninos e mulheres estavam no lado recebedor da atividade sexual, eles eram “muito frequentemente tratados e trocados como simples objetos do desejo masculino”.
Não é de espantar, portanto, que as mulheres fossem colocadas à margem das coisas que contam; eram importantes para a procriação e para cuidar da casa, mas não importantes para serem consideradas como parceiras reais niveladas ao homem. Os homens possuíam outras opções sexuais, com meninos ou com outros homens.
É por isso que a proclamação do judaísmo, de que Deus criou o sexo somente para ser praticado entre um homem e uma mulher, no casamento, era um conceito tão revolucionário – e igualmente desprezado tanto pelos pagãos antigos, como, posso acrescentar, pelos de hoje em dia. É o livro de Gênesis que diz: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne. Ora, um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam”.
Prager escreve: “Essa revolução aprisionou o ‘gênio’ sexual de volta à garrafa matrimonial. Assegurou que não mais o sexo dominaria a sociedade; exaltou o amor e a sexualidade entre macho e fêmea (criando, consequentemente, a singular possibilidade de amor e envolvimento erótico dentro dos limites do casamento); e disparou a árdua tarefa de elevação do status da mulher”. Não é de espantar, aponta Prager, que “o melhoramento da condição da mulher ocorreu somente dentro dos limites da civilização ocidental”, a qual, historicamente, foi a “menos tolerante à ocorrência da homossexualidade”.
É claro que devemos notar que foi o Apóstolo Paulo que levou à frente essa revolução sexual judaica através do mundo antigo. A [autora e erudita] Sarah Ruden escreveu em seu livro recente: Apóstolo Paulo [Paul Among the People, traduzido e publicado em português pela Benvirá [ISBN: 9788582400050]: “A homossexualidade predadora era comum em Roma e na Grécia; as mulheres e crianças eram consideradas apenas como propriedades”. Por meio de Paulo, entretanto, o cristianismo legou à civilização ocidental [a propriedade] do envolvimento do sexo dentro dos limites do casamento, entre um homem e uma mulher. Ficou patente o desvio dos limites que é o abuso sexual de meninos e escravos.

Ora, o ponto é simplesmente este: Deus institui o casamento para o bem da humanidade (restringindo e canalizando [apropriadamente] a sua sexualidade), para proteção e dignidade da mulher e para que a sociedade possa florescer – Charles Colson.
Consideramos muito pertinente esse lembrete da história, pois caminhamos a passos largos para a colocação da família e das expressões legítimas da sexualidade humana, na ilegalidade e à margem da sociedade, se Deus não for misericordioso com nossa pátria e se os cristãos não acordarem do torpor atual, para os direcionamentos firmes e seguros da Palavra de Deus.

Solano Portela

segunda-feira, setembro 22, 2014

Uma mulher na liderança do governo?

- Uma palavra aos evangélicos que têm me perguntado se é apropriada a liderança feminina em um cargo governamental.
A Bíblia definitivamente coloca a responsabilidade de liderar nos ombros dos homens, mas ela é bem específica em deixar essa questão explicitada à esfera da família e da igreja. Em minha opinião, há uma diferença entre se considerar, ou eleger, uma mulher para um cargo civil e uma mulher para um cargo eclesiástico.
No lar e na igreja o homem deve liderar e isso não significa que a mulher é inferior a ele. Liderança masculina no lar coloca nos homens a grande responsabilidade de amar a esposa – como Cristo amou a igreja, ou seja, com a maior intensidade possível – de ser o supridor principal das necessidades físicas, a de protegê-la (1 Pedro 3.7 – “... a parte mais frágil...”). No lar, a mulher tem o papel diferente e nobre de auxiliá-lo no na criação dos filhos e na organização da casa e da vida (Provérbios 31). Deve, em harmonia com a Bíblia, acatar essa liderança ao mesmo tempo em que o exercício dela, para os homens, deve seguir as diretrizes divinas. Se ele confunde liderança com pressão, autoritarismo, falta de consideração, ausência de benevolência e amor, está em pecado e precisa se arrepender e aprender na Palavra de Deus qual o seu papel e qual a postura que agrada a Deus (Efésios 5.25).
Na esfera eclesiástica, os homens são comissionados diretamente (1 Timóteo 3 e Tito 1) a exercer a liderança, a supervisão. Essas duas esferas (lar e igreja) são entrelaçadas, quando Paulo ensina que o campo de provas para que homens sejam colocados como autoridades eclesiásticas, é exatamente a postura de liderança que têm no lar (o texto de 1 Timóteo 3.5 diz: “se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?”). As mulheres podem auxiliar na condução da administração da igreja, especialmente se forem esposas de oficiais ordenados, ou em outras capacidades de auxílio e beneficência, mas a ordenação de oficiais (anciãos/presbíteros e diáconos) é comandada a homens. Quaisquer outros argumentos que subvertam essa ordem de liderança, e muitos evangélicos os abraçam, apelam à sociologia, ao “desenvolvimento” do pensar, ou a outras razões; mas se formos à Bíblia é essa diretriz que encontraremos.
A Palavra de Deus não é taxativa, entretanto, quanto a esse papel de liderança na esfera civil (governo e trabalho). Até temos alguns exemplos, como o de Débora (Juízes 4) – que liderou o povo de Israel, inclusive em uma feroz batalha, incidente em que, inclusive, a JAEL (Juízes 4.18-21 e 5.24) teve papel preponderante no livramento do tirano que oprimia o povo de Deus. No entanto, é bom que fique claro que quando as mulheres assumem papel forte na liderança, isso ocorre para a vergonha dos homens. Demonstra uma falta de líderes no meio do povo. Mesmo no caso de Débora, ela aponta a Baraque que o trabalho era dele. Ela registra que ele estava “tirando o corpo fora” e que Deus a utilizaria de forma excepcional (veja Juízes 4.9).
A omissão da liderança masculina, fica demonstrada, em adição, em Isaías 3.12, pois o profeta aponta essa situação até como uma forma de julgamento da parte de Deus e como uma característica da fraqueza de um povo, quando registra: "Os opressores do meu povo são crianças, e mulheres estão à testa do seu governo...".
Mas, como já afirmei, acima, pela falta de uma instrução ou condenação específica, como é o caso do papel da mulher na igreja (1 Tm 3 e Tito 1) - para o qual existe uma definição clara - não creio que seja pecado nem o voto, nem a assunção dessa liderança por uma mulher. Com essas palavras, não estou endossando ninguém como candidata ideal. Expresso, apenas, o meu entendimento bíblico, em uma conjuntura (2014) que temos como concorrentes principais ao posto maior do nosso governo – à presidência da república – duas mulheres e um homem, suscitando dúvidas quanto qual deve ser a postura dos evangélicos que procuram pautar suas convicções e ações pelas diretrizes da Palavra de Deus.
- Solano Portela

segunda-feira, setembro 08, 2014

Conselhos a um pregador Itinerante

[carta dirigida a personagem fictícia, porém baseada em experiências e fatos bem reais]

Meu caro Pr. Filipe,

Obrigado por seu e-mail contando as experiências recentes em suas pregações Brasil afora. Eu mesmo tenho tido a oportunidade, durante meu ministério, de pregar praticamente em todos os Estados da Federação e em vários países do exterior. Só posso agradecer a Deus.

Acho que é por isso que me sinto à vontade para atender seu pedido de conselhos práticos para suas viagens. Vou falar de coisinhas práticas que, mesmo sendo pequenas e “mundanas”, podem estragar sua estada em uma igreja.

1. Se for viajar de avião, acerte bem cedo quem vai comprar a passagem. Já me aconteceu de chegar o dia de viajar e não ter um bilhete. Os que me convidaram não compraram passagem pensando que eu ia comprar! Foi uma dificuldade conseguir passagem de última hora e estas geralmente são mais caras.

2. Se ficar a seu critério comprar a passagem, veja o horário em que a programação começa, para não chegar em cima da hora. Dê sempre um espaço para atrasos nos aeroportos. Peça um assento no corredor ou janela, não deixe para marcar na hora do embarque. Você pode terminar lá no fundo, espremido entre dois gordões durante duas horas de vôo. Um verdadeiro inferno.

3. No caso de você comprar a passagem, guarde o comprovante para mostrar quanto custou, na hora do reembolso. Não será um problema se você não tiver comprovante, mas fica mais elegante e transparente estar pronto para mostrá-lo.

4. Escreva em lugar acessível um telefone para contato, e mesmo o endereço da Igreja ou do local das pregações, para quando chegar ao aeroporto da cidade onde vai pregar não ser surpreendido por um aeroporto vazio, sem ninguém lhe esperando. Já passei por isso, sem telefone de contato e sem endereço, e lhe garanto, é desesperador!

5. A bagagem é extremamente importante, em caso de compromissos fora da sua cidade. Se for de ônibus, tudo bem. Se for de avião, esteja preparado para extravios. A melhor coisa é viajar leve e acomodar suas roupas, etc. em uma mala ou bolsa que você possa levar consigo dentro do avião, sem ter que despachar como bagagem. Se não tiver jeito, leve pelo menos uma muda de roupa com você. As chances de extravio de bagagem são grandes. Já me ocorreu de chegar em Goiânia para pregar num grande evento, e minha mala se extraviou. Tive que morrer num Shopping Center para comprar de última hora uma roupa completa e todos os acessórios (por causa do meu tamanho, sempre é difícil conseguir paletó emprestado...). A mala só apareceu dois dias depois.

6. Ainda sobre bagagem. O costume das igrejas varia muito pelo Brasil quanto à indumentária do pregador. Em alguns lugares, usar paletó é sagrado. Em outras, indiferente. Meu conselho é que pergunte antes ao pastor da Igreja que indumentária ele costuma usar. E caso isso não tenha sido possível, leve um paletó completo por via das dúvidas. Esteja preparado para tudo – rasgar as calças, descosturar o zíper da calça do único paletó (isso me ocorreu na encantadora Porto Velho. Minha sorte foi que havia uma irmã que era excelente costureira e deu um jeito a tempo para o culto da noite), manchar o único paletó que levou logo na primeira refeição, etc.

7. Por falar em hospedagem, naqueles compromissos de mais de um dia, meu conselho é que não imponha como condição ficar num hotel. Pega muito mal. Infelizmente, muitos pregadores evangélicos de renome quando aceitam um convite impõem como condição, além da oferta já determinada, ficar em hotéis de várias estrelas, comer em determinados locais, etc. etc. Para mim, é coisa de mercenário. Diga que aceita ficar hospedado na casa de uma família desde que você tenha tempo para descansar e rever seus sermões e orar. No meu caso, eu acrescento que não consigo dormir com mosquito (pernilongo, muriçoca, etc. – você tem que lembrar que dependendo do lugar para onde vai, o nome muda...) e calor, e se a família tiver pelo menos um bom ventilador e repelente, já basta. Deixe a Igreja que lhe convida decidir onde vai lhe hospedar. (Se você quiser ler um pouco sobre as bençãos de ser hospedado – e dos que hospedam pregadores – leia uma série de posts sobre o assunto, que começa aqui.

8. Como você é presbiteriano, fique atento para um detalhe que pode acabar trazendo algum embaraço, se você for convidado para pregar numa igreja batista. Isso nunca me aconteceu, mas sei de casos em que o pastor presbiteriano foi pregar numa igreja batista e na hora da Ceia do Senhor foi preterido – o diácono zeloso não lhe serviu o pão e o vinho (como eram batistas, provavelmente era suco de uva). Ouvi falar de pastores presbiterianos que passaram por esse vexame e sei de pelo menos um que se levantou e saiu do culto, na hora. Não precisava tanto, talvez. Mas, que fica chato, fica. Você é crente o suficiente para estar falando lá e até para ensinar a congregação como trilhar os caminhos de Deus, mas não para tomar ceia...Por isso, cuidadosamente, pergunte antes ao colega batista, ou de outra denominação que restrinja a Ceia, se haverá celebração da Ceia e se ele tem a posição restrita ou mais aberta, que concede a Ceia aos pobres presbiterianos. O que é acertado antes, não sai caro.

9. Outro conselho – procure informar-se ao máximo da Igreja onde vai pregar, ou dos que estão patrocinando o evento em que você vai falar. Em 1997 paguei um dos maiores micos do meu ministério quando fui convidado para falar sobre Batalha Espiritual em uma igreja presbiteriana fora de São Paulo (eu tinha acabado de lançar meu livro O Que você Precisa Saber sobre Batalha Espiritual). Eles esperavam que eu falasse a favor e eu fui falar contra! Se eu tivesse tomado o cuidado de me informar cuidadosamente das posições do pastor da época e da situação da igreja, provavelmente teria recusado o convite ou então deixado muito claro que iria falar contra. Foram três dias de tensão e desconforto, na esperança de que Deus estivesse utilizando positivamente aquele constrangimento... Conhecer antecipadamente sua audiência vai ajudar a calibrar a pregação, determinar os conteúdos e tirar do baú do escriba coisas velhas e novas apropriadas para a ocasião (Mateus 13.52).

10. Nesse sentido, é bom estar absolutamente seguro da ocasião e do motivo do convite. O que a Igreja espera? É um aniversário da Igreja? Há um tema específico? Os temas das pregações ou palestras são livres? Eles esperam que você fale quantas vezes? Seja organizado, tenha tudo isso anotadinho bem antes do evento. Eu já passei por maus momentos por causa de desorganização. Cheguei na cidade onde tinha de pregar três vezes sem ter me assegurado da ocasião. Confesso que confiei demais na minha experiência e nos sermões de reserva que tenho de memória. A ocasião era o aniversário do coral da UPH!!! Eu não tinha sermão nenhum preparado para isso. Tive de improvisar na última hora e ficou aquela beleza...

11. Ainda alguns conselhos sobre as pregações. Pergunte antes o tempo que o pastor da igreja costuma pregar. Não abuse do fato que você é convidado. Você vai querer que eles se lembrem de você como “ah, aquele pastor que pregou tão bem sobre Lázaro...” e não como “ah, sim, aquele pastor que pregou cada sermão um mais comprido que o outro...”

12. Outro conselho muito importante. Pregadores itinerantes “como nós” costumam ter um pacote de sermões que levamos conosco e pregamos onde somos convidados. Pode acontecer o desastre de você repetir o mesmo sermão num mesmo lugar. Já passei por essa vergonha. Quem me salvou foi Solano Portela, que estava presente, e logo que eu anunciei o texto e fiz a introdução do sermão, ele discretamente se levantou do banco e me passou um bilhetinho onde estava escrito “você já pregou esse sermão aqui no mês passado”. Quase morri de vergonha. E o pior foi pregar na hora um sermão novo de improviso! Portanto, ache um jeito de registrar onde você pregou determinado sermão e quando, para evitar esse desastre.

13. Por incrível que pareça, o púlpito onde você vai pregar pode se tornar um problema. Há igrejas com púlpitos minúsculos e outras que nem púlpito têm mais – foram aposentados quando o pastor e a igreja adotaram grupo de coreografia, um enorme grupo de louvor e equipe de teatro. O pastor passou a pregar com microfone sem fio, andando pelo palco e pela igreja, sem anotações e sem a Bíblia diante dele, só contando histórias e experiências. Eu sei que você gosta de pregar expositivamente, de ter sua Bíblia aberta diante de você e as anotações ao lado. O que fazer em casos assim? Eu já me virei com aquele estande do regente do conjunto coral, onde de improviso acomodei a Bíblia e as notas. Em outras vezes, não teve jeito. Tive de pregar com a Bíblia aberta numa mão e o microfone sem fio na outra, sem chance de ter as anotações! Nesse caso, o que me salvou foi a boa memória a experiência de pregar de improviso. Meu conselho é que você também pergunte ao pastor se haverá ao menos um estande de regente para colocar Bíblia e notas. Outro conselho é que memorize os sermões e passe a pregar sem notas. Isso vai lhe salvar de inúmeras situações similares.

14. Agora, a questão da oferta. Na verdade, isso não deveria ser nem mesmo uma questão para você. No máximo é uma questão apropriada para quem convida. Quando isso passa ser o foco do seu ministério, vira coisa de mercenários, os que mercadejam a Palavra de Deus. Sei que existem muitos que não têm outras fontes de sustento a não ser o ministério itinerante, mas não é o seu caso e eu não saberia como lidar com essa situação... Já recebi vários convites que vinham com a pergunta receosa, “quanto o irmão cobra por palestra?” Obviamente, respondi que não cobro absolutamente nada, só preciso que paguem as despesas de passagem e hospedagem. Já houve casos em que acabei pagando para ir pregar em outro Estado, numa igrejinha que não tinha condições de pagar a passagem de avião. De ônibus, levaria 2 dias para ir e mais 2 dias para voltar (Deve ser por isso que minha agenda de pregações vive lotada...). Meu conselho é que não conte com ofertas, como se fosse coisa certa. Não são. São um extra, um bônus, que pode ter ou não. Se, todavia, a igreja ou entidade patrocinadora lhe oferecer uma oferta, aceite com alegria e gratidão. Se recusar, vai ofendê-los.

Bom, eu teria mais um monte de coisas para dizer sobre esse assunto. Afinal, após 30 anos como pregador itinerante, no Brasil e fora dele, a gente aprende muito. Mas, no geral, eu lhe diria que tem sido um grande privilégio e alegria pregar em tantos lugares diferentes. Os contratempos não representam nada diante das bênçãos. É claro que isso só tem sido possível pela compreensão e apoio da minha esposa (filha de missionários) e de nossos quatro filhos... recentemente fiquei muito alegre quando uma igreja mandou uma carta para minha esposa e filhos, agradecendo por terem me liberado para passar um fim de semana com eles.

Um grande abraço!
Augustus