sexta-feira, fevereiro 05, 2016

O Homeschooling vai chegar ao Brasil?

Solano Portela[1]

A década de 1990 e a primeira década deste novo século foram caracterizadas por mega tendências (megatrends[2]), ou seja, grandes modificações no curso dos relacionamentos sociais e empresariais. Entretanto, na década 2010-2020 vemos aflorar micro tendências que podem igualmente causar grandes impactos futuros em diversas áreas da sociedade.  Mark J. Penn e Kinney Zolesne, em seu livro Microtrends, chamam a nossa atenção exatamente para esse viés das “pequenas forças por trás das grandes mudanças de amanhã”.[3]

O livro traz um capítulo inteiro dedicado ao segmento da educação, onde apresenta comentários e dados sobre uma minúscula tendência, nos Estados Unidos, que vem crescendo exponencialmente e já afeta significativamente o modus operandi de instituições de ensino tradicionais e a visão do campo educacional como um todo. Trata-se do Homeschooling, ou a educação escolar ministrada nos lares, onde as crianças recebem no aconchego de suas casas o preparo acadêmico, fora da estrutura formal supervisionada pelo estado. A primeira vista pode-se pensar que essa tendência teria apenas repercussão na educação básica (do maternal ao 3º ano do Ensino Médio), no entanto, os reflexos no Ensino Superior já não podem mais ser ignorados.

Como avaliar essa microtendência e seus impactos no Brasil? Não chegaremos a uma avaliação precisa se acharmos que o tema representa apenas uma peculiaridade ou idiossincrasia norte-americana. É verdade que lá encontramos bolsões significativos de ferrenha resistência às garras do estado voraz, e à sua avidez em não somente exigir impostos sobre impostos, mas também por pontificar em todas as esferas da atividade humana.[4] No entanto, a prática do homeschooling nos Estados Unidos vai muito além de ser mera característica exclusiva de comunidades contestadoras. 

Muitos escolhem essa modalidade simplesmente por constatarem a falência do sistema público de educação; a deterioração da disciplina e segurança para suas crianças, nas escolas; e o preço proibitivo das melhores instituições de ensino particulares ou confessionais. Observem também os seguintes dados,[5] que evidenciam a importância dessa prática que começou timidamente na década de 1970, nos Estados Unidos, e que só passou a ser levada a sério a partir de 1999, quando o Ministério da Educação daquele país começou a levantar dados sobre a crescente onda:
  • Em 1999 já haviam 850 mil crianças sendo educadas nos lares. Em quatro anos esse número havia crescido 30%, para 1,1 milhão.
  • Isso significa um acréscimo de 1,7% da população nessa idade escolar para 2,2%.
  • Existem hoje milhares de sites e eventos destinados a disseminar a prática. O mercado de livros, currículos, vídeos e outros materiais relacionados com o homeschooling, movimenta quase um bilhão de dólares por ano.
  • Apesar das crianças educadas no lar representarem apenas pouco mais de 2% da população escolar compatível, elas se destacam surpreendentemente em competições educativas como, por exemplo, nos populares concursos de soletração, onde constituem 12% dos finalistas. Nos testes de admissão ao ensino superior (SAT), os alunos advindos de educação recebida no lar, tiram notas 15% superior às dos demais.
  • As universidades têm se adaptado à tendência. Em 2000 apenas 52% possuíam critérios formais de avaliação dos candidatos educados no lar. Atualmente, 83% já adotam critérios na expectativa de recebimento destes, e eles são bem-vindos pela expectativa de um excelente desempenho acadêmico.
Da mesma forma, não podemos apenas adotar uma visão simplista e dizer que no Brasil o homeschooling é proibido e, portanto, não é assunto a ser discutido, pois não há perspectiva de impacto em nosso sistema educacional. Nos Estados Unidos, mesmo tendo começado na década de 1970, até 1981 ela era ilegal na maioria dos estados norte-americanos; agora ela é legalizada em todos eles. Semelhantemente, no Japão o homeschooling é proibido, mas estima-se que 2 a 3 mil crianças estão sendo educadas dessa forma. Até na China, onde subsiste a proibição formal, a existência da “Shanghai Home-School Association”, deixa vislumbrar que a pratica existe, em extensão considerável. Atualmente, além de nos Estados Unidos, o homeschooling é legalizado na Austrália, Nova Zelândia, Inglaterra e no Canadá.

Presentemente o Brasil já contabiliza alguns poucos casos que têm resultado em processos e contestações judiciais. O Dr. Carlos Roberto Jamil Cury, professor da PUC-MG, em seu ensaio, “Educação Escolar e Educação no Lar: espaços de uma polêmica”[6] apresenta alguns casos de homeschooling no Brasil, que receberam sentenças adversas do nosso judiciário.[7] Dr. Cury concorda com as sentenças e cita parecer do Conselho Nacional de Educação, que expressa a visão prevalecente nos círculos governamentais, de que a única forma de ensino é nas escolas:
Os filhos não são dos pais, como pensam os Autores [do Mandado de Segurança]. São pessoas com direitos e deveres, cujas personalidades se devem forjar desde a adolescência em meio a iguais, no convívio formador da cidadania. Aos pais cabem, sim, as obrigações de manter e educar os filhos consoante a Constituição e as Leis do país, asseguradoras do direito do menor à escola...
Mesmo os cristãos que não são a favor do homeschooling, não podem aceitar essa visão estatal de que "os filhos não são dos pais"!

No lado do homeschooling, alguns casos têm recebido atenção da mídia, como por exemplo:[8]
  • O caso da família Bueno (9 filhos), de Jardim, MS. Durante 13 anos praticaram a educação escolar no lar. Depois de denunciada à Promotoria Pública por familiares, e de julgamentos adversos, mudou-se para o Paraguai.
  • O caso do casal Nunes (3 filhos), de Timóteo, MG. O casal tirou as crianças da escola em 2006. Foram denunciados ao Conselho Tutelar e ao Ministério Público. Para provar que os filhos não estavam “abandonados intelectualmente”, como era alegado, eles foram inscritos no vestibular da Faculdade de Direito de Ipatinga, MG. Passaram em posição excelente, no 7º e 13º lugar, mesmo sem terem completado o ensino médio.
  • O Caso de Júlio Severo, figura controvertida por suas posições políticas e religiosas, que defende homeschooling desde 1991 e foi forçado a mudar-se do Brasil, supostamente por contestações da justiça às suas convicções.[9]
  • O caso da conhecida família Schürmann (3 filhos), que, em 1984 empreendeu uma viagem de 10 anos, navegando pelos mares do globo, aplicando o homeschooling em seus filhos, durante todo esse tempo.
Em 1994 o deputado João Teixeira, do PL, apresentou o projeto lei 4657/1994 procurando regulamentar a educação escolar no lar. No entanto ele foi arquivado no ano seguinte. Em 2008, os deputados federais Henrique Afonso, ex- PT, e Miguel Martini, do PHS, apresentaram o projeto de lei 3518/2008, propondo, novamente, a regulamentação do homeschooling no Brasil, do 1º ao 9º ano.

É possível, que mesmo com a visão monolítica de nossa legislação sobre a educação escolar no lar, talvez estejamos testemunhando mudanças e até a formação de jurisprudência que pode impactar o status quo da educacional tradicional.

Será que, com a globalização os casos de homeschooling não poderão se multiplicar no Brasil? Existirão outras decisões judiciais, ou novas leis, que venham legitimar e encorajar a prática? Em uma era de ênfase à Educação a Distância, como barrar iniciativas de “estudo independente” que apresente melhores desempenhos e avaliações do que a educação clássica tradicional?[10] Obviamente ninguém tem respostas precisas a essas indagações, mas ignorar essa microtendência educacional não nos parece o melhor caminho. Assim, nossas Instituições de Ensino Superior deveriam monitorar a tendência e iniciar estudos sobre os impactos (sociais, financeiros, estruturais, acadêmicos e organizacionais) resultantes de uma abertura do homeschooling no Brasil. Deveriam até considerar a possibilidade de que esta modalidade venha a adentrar o Ensino Superior. Possivelmente essa é uma rica linha de pesquisa que poderia estar presente em diversos programas de pós graduação, de forma bastante interdisciplinar, com teses e estudos objetivos e sem paixões ideológicas que substanciarão muitas decisões e definições.

É possível que pesquisas objetivas e sem paixões estatais ou ideológicas, procurando aferir o lamentável estado do ensino básico, principalmente em sua esfera pública, que leva os pais a procurarem alternativas mais adequadas aos seus filhos, possam contribuir para o sistema educacional como um todo, preparando-nos melhor para o futuro.




[1] O autor ocupou a Diretoria de Planejamento e Finanças do Mackenzie (Universidade e Colégios Presbiterianos) e é, atualmente, o Diretor Educacional da Instituição, da qual, de 2005 a 2008, foi também Superintendente de Educação Básica. É escritor, professor e conferencista.
[2] Como exemplo citamos as mega tendências apresentadas nos livros de John Naisbitt e Patrícia Aburdene: Megatrends (1982) e Megatrends 2000 (1990), todas elas confirmadas por uma aferição histórica do que motivou as grandes mudanças sociais e empresariais dessas décadas.
[3] Subtítulo do livro Microtrends (NY: Twelve Hatchette Book Group, 2007), 454 pp.
[4] Nossa convicção, sem endossar extremismos norte-americanos, é a de que o estado (independente de sua nacionalidade) realmente tem a tendência de extrapolar a sua esfera específica de atuação, que é: garantir a segurança pública e assegurar, a todos os cidadãos, oportunidades iguais de igualmente desenvolverem as suas desigualdades.
[5] Trazidos por Mark Penn, em seu livro.
[6] Texto completo disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-73302006000300003&script=sci_arttext , acessado em 24.05.2010.
[7] Por exemplo, o Mandado de segurança n. 7.407 – DF (2001/0022843-7), impetrado por família interessada cuja segurança foi denegada pelo judiciário, confirmando parecer anterior do Conselho Nacional de Educação.
[8] Um bom relato desses está disponível em: http://ozielfalves.blogspot.com/2008/10/escola-em-casa-crianas-longe-dos-bancos.html , acessado em 24.05.2010
[9] Para mais informações sobre suas posições, vide este blog, mantido pelo Severo: http://escolaemcasa.blogspot.com/, acessado em 24.05.2010
[10] Em 02.05.2015 foi postado artigo com o título: “O Homeschooling é liberado no Brasil”, em http://www.portaltl.com/?p=563 (acessado em 05.02.2016), mas o título é um pouco exagerado e não existiam novidade em trâmites jurídicos relacionados com a prática, até aquela data.

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Tempo perdido: Cuidado para não estragar sua vida


Imagine um banco que credita na sua conta R$86.400 à meia-noite, logo na virada de um dia para outro. Você tem todo esse dinheiro para gastar, mas no fim do dia a conta é zerada. O saldo não passa para o dia seguinte. O que você faria? Deixaria o dinheiro no banco, ou iria à boca do caixa e retiraria até o último centavo assim que o banco abrisse? Acontece que esse banco existe, todos os habitantes do planeta têm essa conta, mas o crédito é feito a cada dia em segundos. Você tem diariamente exatamente 86.400 segundos para usar a cada 24 horas e o saldo não é transferido para o dia seguinte. Ricos, pobres, americanos, brasileiros, europeus, árabes, eslavos, asiáticos – todas as pessoas de todas as nacionalidades e de todas as classes sociais têm exatamente a mesma quantidade de tempo, dia após dia para as atividades da vida. E não é uma conta especial – a conta não admite ir além do saldo. O único investimento válido é aquele que é produtivo para a sua vida, de alguma forma. Você tem que aplicar esses segundos em algo que valha alguma coisa, que faça diferença em sua vida. E você também, nessa conta, não pode tomar emprestado de outra pessoa.

Tempo, o grande equalizador. Assim é o tempo: o único ativo que é igual para todos na face da terra. Algumas pessoas têm mais beleza do que outras; outros têm talento acima da média; alguns têm mais oportunidade ou condição social melhor do que outros – mas o tempo nos nivela a todos. Ninguém tem mais tempo por dia do que a pessoa ao seu lado. Por isso ele deve ser utilizado com sabedoria e é exatamente ele que pode significar a nossa ascensão, ou o nosso declínio nas nossas jornadas, quer seja na vida estudantil, quer seja em nossas carreiras, ou até em nossos relacionamentos. É dentro do tempo que recebemos que definimos também os nossos destinos últimos, na vida – a nossa eternidade. Uma das expressões mais comuns é: “não tenho tempo”, mas a realidade é que todos nós temos tempo, o mesmo tempo. Por que uns conseguem utilizá-lo adequadamente e outros não?

O tempo não pode ser desperdiçado, não deve ser perdido. E isso é uma realidade na vida de todos. Você mesmo, com certeza, já utilizou outra expressão: “Perdi o meu tempo” – quando avaliou alguma experiência na qual julgou que o investimento do seu tempo, de sua vida, não contribuiu em nada, não valeu a pena. Percebe como essa situação revela uma equação incontestável? Tempo = Vida. 

Benjamin Franklin escreveu: “Tempo perdido, nunca é achado”. Ou seja, o sentimento é sempre de frustração, de nostalgia, de perda, mesmo. Por mais que você se esforce para recuperar “horas perdidas”, não conseguirá, pois terá de aplicar mais horas para realizar o que deixou de fazer, enquanto “perdia o seu tempo” com algo que “não valeu a pena”. Perda, nessa questão do tempo, é perda irreparável, para a vida toda, o  tempo não é reciclável e simplesmente some de sua vida.

Normalmente não damos muito valor ao tempo, ou aos seus marcadores: segundos, minutos, horas, dias, meses, anos. Vamos levando a vida sem pensar nessa questão, até como se fôssemos viver para sempre. Mas cada intervalo de tempo tem um valor inestimável. Reflita:
·        Para aferir o valor de um ano – pergunte a um colega seu que foi reprovado – ou pode ser até que essa sensação faça parte de sua vida. Tudo que aconteceu durante todo um ano que passou, terá que ser repetido, para que a vida estudantil continue, mas o tempo aplicado não será recuperado.
·        Para aferir o valor de um mês – pergunte a uma mãe de um bebê que nasceu prematuramente. Quanta diferença nos cuidados e apreensões faria mais um mês de gestação, tanto para a mãe como para a criança.
·        Para aferir o valor de uma semana – fale com o editor de uma revista semanal. Note como ele valoriza cada fração de tempo daquela semana, pois o ciclo se fecha e se repete com uma enormidade de trabalho a ser realizado dentro de tão pouco tempo.
·        Para aferir o valor de um dia – fale com uma diarista que depende do salário daquele dia para colocar comida na boca dos filhos. Se ela perde aquele dia, não recebe o seu pagamento.
·        Para aferir o valor de uma hora – pense como ela passa rápido quando você está com a sua namorada, ou como ela demora a chegar, quando você a está esperando em um encontro marcado.
·        Para aferir o valor de um minuto – pergunte a alguém que perdeu um voo porque chegou “apenas” um minuto após a porta de embarque ter fechado.
·        Para aferir o valor de um segundo – pergunte a algum atleta que deixou de ganhar o primeiro lugar por que o oponente chegou “apenas” um segundo na frente dele, ou até com uma fração decimal, centesimal, ou milésima de um segundo. 

A preciosidade do tempo. A realidade é que o tempo é tão precioso que uma vida que dura quatro minutos pode ter um impacto fenomenal em inúmeras pessoas. Isso aconteceu com o bebê Isaac Joseph Schmall, que nasceu em 10 de novembro de 2008. Seus pais sabiam que a gravidez era problemática. O bebê Isaac tinha uma doença rara chamada Trissomia 18, ou Síndrome de Edwards. Isso quer dizer que em cada célula do seu corpo ele tinha uma cópia extra do 18º cromossomo. Três cromossomos, em vez dos dois existentes em uma concepção e desenvolvimento normal. Bebês com essa deficiência geralmente não sobrevivem o período de gestação, alguns falecem após o parto.

Isaac morreu 4 minutos após o nascimento. Seus pais o tiveram em seus braços nesse curto período de tempo. John Schmall, o pai, descreveu o impacto da notícia, as agruras do acompanhamento da gravidez, e, principalmente, a emoção de tê-lo nos braços por aquele pequeno espaço de tempo em um texto que tem rodado a Internet: “Quatro minutos que mudaram a minha vida para sempre”! John descreveu como esses quatro minutos mudaram a sua perspectiva de vida dali em diante. Mais recentemente, em 2013, sua esposa indicou o efeito causado nela por aqueles minutos e por aquela pequena vida, com um longo texto, publicado no blog do esposo. Nele ela escreveu:
Isaac viveu por quatro minutos, mas o impacto que ele causou nesse espaço de tempo é palpável.  Deus me deu 35 anos de vida. Isso faz com que eu queira extrair o máximo desses anos. Desperto todos os dias agora e agradeço a Deus por me dar mais um dia de vida, no qual posso desfrutar de minha família, do meu trabalho, da minha igreja, de minha cidade e, principalmente, do meu relacionamento com Ele.

O relato dos pais de Isaac tem tocado vidas ao longo dos anos e canalizado recursos e esforços para a Fundação Trissomia 18, que estuda a enfermidade. O valor que eles conseguiram enxergar nesses 4 minutos de vida é um testemunho à preciosidade do tempo.

Tempo perdido, oportunidades perdidas. Ao longo da vida encontramos muitas oportunidades e portas que se abrem. Elas podem ser ganhas com tempo aplicado adequadamente, ou perdidas, com tempo desperdiçado em coisas inúteis. Essa é uma realidade especialmente na vida de estudantes universitários. Quantas oportunidades existem! Muito a aprender nos cursos da carreira escolhida; amigos novos, vários com interesses comuns aos seus; eventos culturais; feiras e eventos, de recrutamento, estágios; “empresas júnior” e incubadoras, nas quais eles já podem começar os primeiros passos na profissão; locais de descanso e de estudo, alguns bem aprazíveis, no meio da metrópole de concreto. Mas na realidade, as oportunidades existem também para desperdiçarmos tempo, e elas parecem brotar do solo a todo instante.

Se tivéssemos sempre os pés bem firmados em princípios e valores eternos e conseguíssemos compreender bem que o que fazemos no presente afeta o nosso futuro, saberíamos que podemos também criar oportunidades, com nossa atitude (não é só esperar que elas surjam à nossa frente). Mas, especialmente, que nunca deveríamos perder tempo. Cada minuto conta, cada hora é valiosa, mas parece que somos especialistas em desperdiçá-las. E nesse processo podemos ser tão intensos que corremos o risco de estragar a vida inteira. Veja a seguir algumas situações em forma de depoimentos que refletem situações nas quais perdemos tempo – Você se vê em alguma dessas situações?

·        Vivo conectado o tempo todo, surfando na Internet, em mídias sociais. Na realidade, não consigo parar dois minutos sem pegar meu smartphone, e quando percebo, já passei 20 minutos trocando mensagens bobas.
·        Tenho umas amizades que não são lá muito boas e como elas sugam meu tempo! Não consigo dizer não e indicar que tenho coisas realmente importantes para fazer, e passo horas só batendo papo, que não tem nada a ver com o que eu deveria estar envolvido.
·        Não consigo dormir cedo. Acho que estou até “ganhando tempo”, não dormindo, mas na realidade fico inventando coisas para ver ou fazer e estou mesmo é roubando tempo do descanso. No dia seguinte, perco tempo com a sonolência constante e fico meio “desligado” por um bom tempo, quando deveria estar com o corpo descansado e a mente aguçada, para absorver conhecimento – afinal, estou na escola!
·        Sei que tenho deveres, tarefas, trabalhos de escola, mas fico empurrando tudo para frente (adiando), achando que “vou conseguir dar um jeito” e terminar tudo a tempo. Perco tempo com coisas sem foco nos meus trabalhos e fico agoniado, pois sei que o professor não vai adiar o prazo.
·        Não consigo me organizar ou sistematizar minha rotina e dar prioridade às coisas que tenho de fazer. Porque sou desorganizado, levo mais tempo achando as coisas, os lugares, as pessoas, perco compromissos. No fim do dia acho que não fiz nada de útil. Vivo fazendo só o que é urgente, mas no final,  tudo vira urgente!
·        Adoro festas, companhia barulhenta, os barzinhos da redondeza. Às vezes mato a primeira aula – afinal todos chegam atrasados, não é? Ou saio antes do final, mas vou, junto com a “turma” para o bar. Bebo demais. Lá em casa nem sabem que estou usando algumas drogas. No dia seguinte estou um lixo – nem consegui dormir, “vidrado”. Nem sei o que fiz, ou que deixei que fizessem comigo enquanto eu estava chapado. Estou moído e nem sei quem me bateu. Não consigo me concentrar em nada. Até quando estou na classe estou perdendo o que está sendo dito. O que vou fazer na prova final?
·        Sou vidrado em videogames. Só penso nisso; todo o meu tempo livre, acho uma maneira de jogar. Não vou bem na classe, não encontro tempo para estudar.

Cada uma dessas situações significa perda de tempo, e assim você vai desperdiçando a vida, mesmo se se enquadra minimamente em alguma delas. Você pode ir até se enganando, achando que está aproveitando o tempo, aproveitando a vida, em coisas que não constroem, mas antes que você se aperceba, pode esbarrar na expressão inevitável e imutável: “Game Over”! A brincadeira um dia termina e a conta do pedágio pode ser alta demais e impagável.

Algumas filosofias, como o existencialismo, ensinam que o que importa é o aqui e o agora. Mas será? Esse pensamento sempre esteve presente na história da humanidade, e muitos, realmente, acham que a postura de vida deve ser: “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos!”. Quem pensa assim realmente compreende que a vida é curta. No entanto, acha que “aproveitar a vida” não é sorvê-la cuidadosamente, com as prioridades bem aguçadas, prosseguindo avante com um propósito bem definido, mas é exatamente o contrário. “Viver intensamente” para algumas pessoas significa desperdiçar a vida com as coisas que, aparentemente, satisfazem as sensações e trazem prazer – sem quaisquer referências éticas, mas que nos levam a gastá-la com o aqui e agora. É a atitude que nos levará, no futuro, a lamentar o “tempo perdido”, as oportunidades jogadas fora, o desperdício da própria vida.

Quando falamos de “não perder tempo”, não queremos dizer que todo lazer é perda de tempo. Deus nos fez criaturas que precisam do descanso e do lazer. Não devemos ser escravos do relógio, mas ele é o grande aliado para que tracemos a proporção correta entre os diversos aspectos de nossa vida. Precisamos de tempo para o cuidado pessoal, para a família, para os relacionamentos, para os estudos, para adoração; enfim, tudo na proporção e prioridade corretas. Devemos, também, ter a consciência de que, nas diferentes fases da vida, alguns aspectos devem receber a prioridade. Por exemplo, estudantes têm que priorizar os estudos, pois ele é fundamental para as fases seguintes da vida. A questão é que não podemos transformar a diversão na prioridade de nossas vidas e muito menos nos deixarmos levar pela dissolução social e moral.

O conselho de um grande acadêmico, sobre o tempo. O grande filósofo, erudito e pregador Jonathan Edwards – fundador da Universidade de Yale –, escreveu sobre o tempo,[1] em dezembro de 1734. Seus pensamentos seguem, a seguir, resumidos. Ele coloca quatro razões por que o tempo é precioso:
1.     Porque é neste tempo que ajustamos nossa vida para a eternidade, com o Criador.
2.     Porque ele é curto. É uma comodidade escassa. Quando comparado não somente à eternidade, mas à própria história da humanidade, nossa vida é apenas uma pequena marca nela. (o que é a vossa vida?)
3.     Porque é impossível termos certeza de sua continuidade. Podemos perder a nossa vida repentinamente, por mais jovens que sejamos.
4.     Porque depois que ele passa não pode ser recuperado. Muitas coisas que temos, se perdidas, podem ser recuperadas, mas não o tempo perdido.

Por isso ele conclama aos seus leitores que reflitam sobre tempo que passou. Em como ele foi desperdiçado e que coisas poderiam ter sido realizadas. O que você fez com todos os anos e dias que você recebeu de Deus? Ele termina indicando que, em geral, não prestamos muita atenção à preciosidade do tempo. Não damos muito valor a isso. Edwards continua dizendo que essa valorização só vem tardiamente e pergunta: quanto poderíamos aproveitar se tivéssemos essa percepção aguçada o tempo todo? Ele indica várias formas de como perdemos tempo e desperdiçamos a vida:
1.     Muitos desperdiçam o tempo fazendo nada, acometidos de uma preguiça renitente.
2.     Outros desperdiçam o seu tempo em bebedeiras, em bares, abusando de seus corpos em atividades que lamentarão consideravelmente anos após, se sobreviverem aos próprios desmandos a que se submetem, angariando para si pobreza, em todos os sentidos...
3.     Alguns desperdiçam o tempo fazendo o que é mau, o que é reprovável, o que prejudica o próximo. Passam o tempo sugados pela dissolução moral, maquinando corrução, fraude; afundando-se na ilusão de que poderão levar vantagem em tudo.
4.     Por último, um grande número desperdiça o tempo e a vida tentando “ganhar o mundo”, progredir na carreira, avançar na vida, angariar mais e mais bens e coisas materiais, mas esquecidos das questões eternas e da nossa própria eternidade. Negligenciando as coisas de Deus, a nossa vida espiritual, a nossa necessidade de Salvação do pecado que nos rodeia e que está em nós, e que só é encontrada em Cristo Jesus.

Finalmente, Edwards nos relembra que todos nós teremos de prestar contas a Deus pelo tempo que recebemos dele. O que fizemos com ele? E, assim, conclama a que nos esforcemos para fazer cada segundo, minuto ou hora de nossas vidas, contar positivamente. Em vez de nos desencorajarmos pelo tempo perdido, ou ficarmos deprimidos por nossos desperdícios, aprendamos com os erros do passado, para darmos o rumo certo aos nossos passos futuros.

As palavras de Edwards não parecem ter sido escritas há 280 anos, não é mesmo? Na época dele não havia computador, nem baladas, nem raves, nem mídia social. O álcool já fazia os seus estragos, mas era a maior droga disponível (hoje temos drogas muito mais destrutivas do cérebro e da saúde em geral). No entanto, ele sabia bem o que era “perder tempo” e desperdiçar a vida. A natureza humana continua a mesma. Os alertas continuam válidos. Vamos parar de perder tempo e vamos cuidar bem da nossa vida, conscientes de nossos deveres para com Deus e para com os nossos semelhantes?

Resgatando o tempo. As pessoas falam muito sobre “falta de tempo”, “perder tempo”, “gastar tempo”, “passar o tempo”; mas você já ouviu falar de se resgatar o tempo? A primeira coisa a fazer é identificar quem ou o que está sequestrando o seu tempo e já colocamos uma boa relação de possibilidades. Você pode começar fazendo a sua própria relação – aquelas coisas que estão roubando o tempo de sua vida.

A expressão resgatar o tempo foi utilizada por uma pessoa que estava inocentemente presa, apenas pelas coisas que proclamava, e que sabia muito bem o valor do tempo e o quanto custava perdê-lo. Refiro-me ao apóstolo Paulo. Em uma das cartas que escreveu enquanto estava na prisão, ele disse: “[...] vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, remindo o tempo, porquanto os dias são maus”. (Efésios 5.15-16).

A palavra “remir” significa exatamente “resgatar”; o sentido é o de “comprar de volta o que antes nos pertencia”. É a mesma ideia de alguém, uma pessoa, que é sequestrada: a família fica desesperada. A pessoa preciosa e querida foi roubada e agora estão pedindo dinheiro por ela! Assim é com o tempo! Ele é nosso, mas estamos rodeados de salteadores que o roubam de nós. Sequestro implica em refém. Vimos que tempo é vida. Se alguém ou algo sequestra o seu tempo, tem você como refém. Preste atenção à sua vida. Veja quais são os “ladrões” do seu tempo; o preço do resgate é a sua conscientização da importância do tempo, a coragem para tomar decisões importantes, a adoção de uma perspectiva de vida fundamentada na verdade, a percepção de que a vida não pode ser desperdiçada. Paulo considerava essa questão de entesourarmos o nosso tempo algo tão importante, que repetiu a mesma expressão em outra carta que escreveu da prisão aos Colossenses.

Veja que o texto de Paulo começa com um apelo a andar prudentemente. Prudência é uma condição fundamental para não desperdiçarmos a nossa vida. Perder tempo é, portanto, uma grande imprudência. A palavra também pode ser traduzida como diligentemente ou precisamente. Essas duas últimas palavras têm tudo a ver com tempo, não é mesmo? Diligentemente = fazer as coisas com concentração e de forma rápida; precisamente = fazer com precisão cronométrica, ou na medida certa. O apelo é para andarmos como sábios e não como tolos (“néscios”). Quantas pessoas não estão nesse momento perdendo tempo, desperdiçando a vida, achando que estão “abafando”, que estão aproveitando a juventude? Mas estão apenas demonstrando irresponsabilidade, falta de inteligência e que são, na realidade, bobos.

A ideia é a de que o tempo naturalmente vai se esvaindo. Você tem que tomar as rédeas de sua vida; se a ela for vivida ao sabor das circunstâncias, o desperdício será o curso natural. O texto termina expressando uma realidade: “os dias são maus”. A maldade, a violência; a fragmentação dos costumes, da ordem, da responsabilidade para com o nosso próprio corpo e para com a vida dos outros estão em toda parte.

Você tem consciência disso? Cuidado para não estragar sua vida! Os dias são realmente maus! O sábio Salomão já alertava 1000 anos antes de Cristo, para que nos lembrássemos do nosso Criador nos dias da nossa mocidade (Eclesiastes 12.1). O alerta continua válido. Jesus Cristo é aquele que traz a mensagem do Criador. Por intermédio dele é que nos achegamos a Deus. Alicerçado nele, utilize bem o seu tempo, caminhe com segurança e com a certeza de que ele pode abençoar os seus passos e orientá-lo a uma vida proveitosa e plena, para você e para aqueles com quem você conviver.

F. Solano Portela Neto é autor de diversos livros, educador, tradutor e conferencista, já ocupou a Diretoria de Planejamento e Finanças do Mackenzie (IPM) e atualmente é o Diretor Educacional da Instituição.

(Texto completo do livreto lançado em 01.02.2016, pela Chancelaria do Mackenzie, como parte de uma série, de vários autores, para jovens universitários, como parte do cerimonial para recepção de novos alunos) 

quinta-feira, dezembro 31, 2015

Enfrentando a instabilidade de 2016

O ano de 2016 está às portas e se há uma unanimidade no Brasil, entre governo e oposição, crentes e descrentes, compatriotas e estrangeiros, ricos e pobres, é que não será um ano fácil. Os registros de corrução se avolumam, os valores expostos, são assombrosamente vultosos e expõem os intestinos de uma nação que se acostumou tanto com a prática que virou presa fácil á extorsão pura e simples, calcada em relacionamentos incestuosos com o poder.

Os problemas fiscais são apocalípticos, possivelmente “como nunca na história deste país”. Programas sociais de legitimidade e eficácia duvidosa contribuíram para drenar a nação. Nestes últimos dias de 2015 cerca de 75 bilhões foram transferidos de contas do governo para bancos estatais, para pagar as chamadas “pedaladas”, ou maquiagens contábeis, pelas quais as contas vêm sendo “fechadas” na aparência. Na realidade muito deste “pagamento” foi feito em forma de substituição por outras dívidas, com a emissão de títulos da dívida pública – ou seja, papeis e promessas de pagamento futuro, em vez de dinheiro. O país está cabisbaixo, envergonhado e sem atinar com a saída. A realidade dura é que todos nós vamos pagar a conta dos desmandos; na realidade, JÁ estamos pagando. Aqueles que têm poupança e bens, por mais modestos que sejam, tiveram estes confiscados em 50%, no ano, quando transformados em dólar. Os salários valem 50% a menos, quando a referência é o dólar, e não digam que “não temos nada a ver com essa moeda”. Em uma economia globalizada, tudo fica mais caro e isso afeta a vida de todos, inclusive a dos mais carentes. A ressurreição do infame Imposto sobre Movimentações Financeiras (IPMF) não cessa de ser anunciada. Nesse cenário, alguns clamam por “mais governo”! “Aumentem os controles”! Deem a eles mais poder para aumentar os impostos! Outros desesperam e dizem, “não adianta, não há esperança”.

Coloco aqui alguns pensamentos para adentrarmos 2016 com um pouco de lucidez, realistas, mas confiantes na soberania do Deus que reina, procurando deixar a Palavra de Deus construir nossas convicções  sobre as estruturas e perspectivas desse mundo, no qual ele nos colocou para sermos sal e luz.

1. A solução não se encontra em mais controle governamental, mas na volta às responsabilidades básicas do governo.
Vivemos em um mundo caído em pecado. A ganância, a cobiça, o amor ao dinheiro sempre se constituirão em fortes tentações. Sempre darão oportunidade dos ricos e poderosos oprimirem os mais fracos. Por isso, em paralelo às garantias de liberdade e de livre iniciativa, o governo deve também proteger os cidadãos comuns da injustiça e da desonestidade. Nisso, nada mais fará do que voltar às suas responsabilidades básicas, recebidas de Deus. Mas isso não significa uma carta branca ao intervencionismo de toda sorte. Não representa uma ressurreição do socialismo moribundo. Se há algo que os últimos anos deveriam nos ensinar, é que o poder do estado (ou do governo) é RESTRITIVO e não DISTRIBUTIVO.

2. A esfera econômica também pode ser palco de violência e de injustiça e deve ser fiscalizada.
Por princípio, e exatamente por acreditar que esse é o projeto encontrado na Bíblia, sou avesso à grande maioria dos controles governamentais que se aceitam com naturalidade nos dias atuais. O propósito do Governo é dar garantia à segurança dos cidadãos para que eles possam desenvolver, em condições de igualdade e justiça, suas desigualdades e seus potenciais com o máximo de respeito ao próximo e em obediência à autoridade que os garante (Romanos 13.1-7). Mas essa tarefa requer, por vezes, a colocação de controles na sociedade – e na esfera econômica, exatamente para proteger os inocentes. Por exemplo, nenhum defensor de um papel reduzido ao governo, deveria ser contra a existência de sinais de trânsito. Mas isso não é extrapolar as funções do governo? Não! Ao ordenar o tráfego, ele protege as pessoas umas das outras; deve ter condições de punir os “avançadores” de sinais e de reconhecer os que os respeitam. Nesse sentido, apoiemos a livre iniciativa tanto quanto devemos apoiar a punição dos corruptos e daqueles que corrompem.

3. É necessário a proteção aos inocentes e a punição dos maus.
É óbvio que há a necessidade de mais fiscalização e diretrizes éticas no meio das estatais. O tesouro da nação não é para ser explorado por pessoas, partidos ou grupos de interesseiros. Cargos deveriam ser preenchidos por competência, não por alinhamento político-partidário. No mercado financeiro, à luz da crise de 2008, é necessário que subsistam diretrizes que limitem a exposição indevida aos créditos de risco. Essas práticas estarão alinhadas exatamente com a proteção de inocentes. O aperto, o arrocho fiscal, a recompensa dos maus, com os bons pagando a conta, é uma inversão de valores. Cabe sim, ao governo, prevenir o crime, identificar e punir os malfeitores. Os governantes, como ministros de Deus, devem valorizar (e não sufocar em impostos) aqueles que “trabalhando sossegadamente” procuram ganhar o seu pão (2 Tessalonicenses 3.12). Em paralelo não podem deixar impunes aqueles que se aproveitam de situações, ou do poder que detêm, para enriquecimento pessoal ilícito, muitas vezes sugando dos que pouco têm – via de regra com desvio dos recursos destinado a “órfãos e viúvas”.

4. Instabilidade é uma realidade inexorável.
Instabilidade parece ser a palavra da vez (com todas as suas derivativas: volatilidade, desconfiança, falta de credibilidade, insegurança, etc.). Nesse sentido, todo esse turbilhão econômico-financeiro que estamos vivenciando vem demonstrar a bênção que é a estabilidade, tão rapidamente abalada. No Brasil, chegamos a quase nos acostumar com uma forma de vida mais economicamente estável, em função da solidez da moeda e de uma situação econômica favorável ao crescimento, experimentada desde 1994. É verdade que o aperto financeiro em nosso bolso nunca foi aliviado, mas passamos a planejar com mais tranquilidade e, ingenuamente, passamos a achar que a estabilidade era permanente. Chegamos a arquivar os pacotes econômicos, como coisas do passado. É fácil enganarmo-nos a nós mesmos, mas uma simples olhada na história demonstrará como instabilidade é a norma nesse mundo. Em 1987 houve uma crise intensa nos mercados financeiros. A capa da revista TIME chegou a compará-la á crise de 1929. Em 2008 tivemos uma crise monumental. Nossa memória é curta. Estamos preocupados com a situação financeira, mas um olhar mais abrangente revela violência crescente, atos de terror, guerras atrozes, crueldades indescritíveis, exploração de mulheres e crianças. Um mundo que jaz em pecado é, por definição, instável.

5. Estabilidade é um anseio legítimo que cresce em proporção inversa à instabilidade ao nosso redor.
No cenário de recessão que atravessamos e naquele que se descortina para 2016, já é possível antever o continuado desaquecimento do mercado; vendas cada vez mais decrescentes; contenção de despesas nas empresas, com o consequente desemprego; incertezas em nosso dia-a-dia; instabilidade, enfim. De certa forma, nos sentimos espoliados em conquistas que julgávamos alcançadas. Com frequência as pessoas se consideram aventureiras e corajosas, mas por que será que a estabilidade é algo tão almejado e perseguido? Por que as pessoas anseiam por uma repetibilidade das circunstâncias, pela condição de poderem planejar?

6. Estabilidade é característica divina.
Estabilidade é uma característica divina, por isso ela é uma bênção. Deus é estável. O pecado é fator de instabilidade. Deus é previsível. Satanás é enganador e astuto. A criação geme, sob o domínio do pecado. Deus instala a ordem no meio do caos. A mensagem de Deus é construtiva, no meio da turbulência. O plano de salvação é sequencial, lógico e progressivo. Da morte espiritual, pela justificação procedente de Jesus Cristo, passamos à vida e, em santificação, aguardamos a glorificação e comunhão eterna com o Pai. A Palavra de Deus ensina estabilidade de vida, a estabilidade da família, a estabilidade da sua Igreja. Estabilidade, podemos esperar de Deus, e só dele: o mais está fadado à desilusão.

7. Vivendo estavelmente em um mundo instável.
Não tenhamos dúvida de que Deus nos sustentará em 2016. Ele prepara os seus servos para viverem estavelmente em um mundo instável. Jesus intercedeu não para que fôssemos tirados do mundo, mesmo com suas instabilidades e perigos, mas para que pudéssemos ser livres do mal. Na realidade, somos comissionados com a mensagem da estabilidade do evangelho, como embaixadores de um país celestial, no qual não existem pacotes, e os tesouros não são corrompidos pela inflação, especulação ou malversação; onde não existem crises, nem turbilhão financeiro; de onde a corrução e o pecado foi levada e lavada pelo Sangue de Cristo. Serenidade e confiança em Deus é o remédio para os sobressaltos desta vida. A estabilidade que o mundo e os governantes nos oferecem, é passageira, é enganosa, é traiçoeira. A paz que recebemos de Jesus difere da obtida do mundo: ela tem o efeito de serenar os nossos corações.

8. Enfrentando a instabilidade de 2016.
Como enfrentar este ano de crise e outras crises em nossas vidas? Com a paz de Deus em nossos corações, com a confiança de que ele reina e está em controle de tudo e de todos, com a certeza de que a vitória final é dele e de seus servos. O que pedir a Deus, para 2016? Devemos estar orando para que ele possa atuar em nosso país, derramando a sua graça comum, para que a estabilidade, tão característica de sua pessoa, seja parte de nossa experiência e peregrinação, por onde ele nos guiar. Nesse momento de incertezas, acima de tudo, além de contabilizarmos as perdas (agora, ou no futuro) façamos um balanço da nossa alma, dos nossos objetivos e de nossas motivações. Aprendamos com as circunstâncias, pois o Deus da providência nos ensina através das situações em que ele nos coloca.

"Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus". Filipenses 4.6,7


Solano Portela

sábado, outubro 24, 2015

Samuel apareceu a Saul? A pitonisa era "médium"?

Duas perguntas se destacam no controvertido episódio da Pitonisa de En-Dor, descrito em 1 Sm 8.19-20): 1. Samuel realmente apareceu a Saul? 2. Existe uma explicação bíblica para a mediunidade?

Os seguintes pontos são básicos para um entendimento sobre o assunto:

1. At 16.16 e Dt 13 são passagens que mostram que a Bíblia reconhece que Satanás utiliza pessoas com esse propósito de "intermediar" o oculto.

2. No entanto, esse meio de suposta “aquisição de conhecimento espiritual” é vedado por Deus (Dt 18.9-14). Em Dt 13.2-5 maior importância é dada à revelação prévia recebida (v. 4), como meio de comunicação de Deus ao homem, do que aos fenômenos e maravilhas porventura realizadas por agluém. A revelação escriturada (a Palavra de Deus) é a fonte confiável e está em harmonia com essa diretriz. Ela é o conjunto de revelação dada por Deus às pessoas

3. Is 8.19-20 mostra que o caminho certo de se prescrutar a vontade de Deus é a consulta à Palavra de Deus ("à Lei e ao Testemunho"), e não aos médiuns e advinhos.

4. Temos várias condenações adicionais a consultas aos médiuns, em Lv 19.31; Ex 22.18 e Lv 20.6.

5. No episódio da Pitonisa de En-Dor, pode ter existido uma manifestação de Satanás (2 Co 11.14), como pode ter havido um embuste da parte daquela que se propunha a invocar os mortos. Nesse sentido, leia com atenção 1 Sm 28.14: “... entendendo Saul que era Samuel...” No v. 13, a mulher disse “... vejo um deus que sobe da terra...”

6. Mesmo havendo a possibilidade dessa mulher ter sido enganada, ou de ter enganado a Saul, tudo ocorreu dentro da esfera de atuação de Satanás.

7. Não devemos ser indevidamente céticos, ou pseudo-racionais, afirmando que esses fenômenos não existem, pois tal posição não é bíblica, mas devemos ter a consciência de que fraudes existem com freqüência.

8. É improvável que a aparição fosse realmente de Samuel, servo de Deus, pela própria afirmação de que o espírito “subiu da terra...” e pela afirmação de Cristo, na parábola do Rico e Lázaro 
(Lc 16.26), de que os que com Deus estão não podem passar “... de lá para cá...”

Solano Portela - texto contido no quadro ilustrativo do Terceiro Mandamento, no meu livro, "A Lei de Deus Hoje".

quarta-feira, setembro 02, 2015

Dad, Why am I never right? The Difficult Task of the Judge-in-the-Home.

            Christians ought to have an acute sense of right and wrong. It stands true that many are losing this outlook on life; after all, this is the age of tolerance. Lately we have been taught that there are no absolutes, that our truth is not really the real truth, and therefore we have to be constantly seeking for “the other person’s truth.” A whole generation of indifferent, watered-down Christians has arisen with no deep convictions about anything except the accepted norm that you should have no convictions.

            I grew up under a different set of values. I was shown, from the Bible, that there were certain things that were clearly right and others that were equally wrong. I learned that this applied to attitudes, as well: some were commanded while others were condemned. Often learning through painful experience, furthermore, I saw that the Bible was silent about some things. In these cases “right” and “wrong” had to be discerned through an interpretation of time and cultural context, as well as one’s testimony, rather than obtained from direct propositions. These “rights” and “wrongs” were also important, but, being subjectively asserted, they had less weight than the objective directives of the Bible. Some room had to be left for a constant and charitable examination of the other person’s point of view. I also learned the difference between descriptive historical passages and prescriptive doctrinal exhortations. Thus, I was kept from the many religious pitfalls that I saw displayed in the lives of several strange people who God allowed to cross my path.

            This sense of right and wrong leads one to a keen perception and love of justice. It should be natural, in a Christian’s life, that he or she would reflect as closely as his sanctification allows, God’s justice and holiness. It is significant that one of the marks of the ungodly or of the apostate, is that they are “unfaithful in their contracts” (Rom 1.31—covenant-breakers, KJV). So, Christians should be faithful in their dealings. They should keep their word, hating lies and loving truth. They should refuse to watch and accept, with quietness and modern life asepsis, the mistreating, bartering, slaughtering of the young or helpless, wherever it may occur, whether in the streets of New York, in the hills of Bosnia, in the deep jungle of Burundi, or in the Middle East, under the cruelty of Islamic radicals. They should strive to be examples and promoters of justice with their actions and words, without any trace of pride, but based on the fact that we are all servants of the Almighty God of Justice. Perhaps this is why we are called “contenders for the faith” (Jude 3), meaning that we are engaged in a constant battle where evil tries to establish itself as the standard of conduct, contrary to God’s ways. We should never allow, in the areas placed under our responsibilities, that the situation described in Isaiah 5.20 should reoccur, but rather cry alongside with the prophet denouncing those who: “call evil, good; darkness, light; and sweetness, bitterness.”

            We are called to display these convictions, and to defend right against wrong, on many fronts: in our school, in our work and even in our church and ecclesiastical fellowships. But, perhaps, in no other place is this task as difficult to perform as in our own home. I am not considering cases where the willful promotion of injustice is served. I am not talking about husbands beating their wives, mistreating their children or neglecting their material support. I am not thinking about child abuse or exposition of pornographic material in the home. To these clear violations of God’s standards, He has spoken abundantly in His Word, and judgment will befall upon the violators of His commands, in both a temporal and an eternal manner. The question that I am considering is when we, sincere and God-fearing Christians, are called upon to act as a judge in our day-to-day lives, by members of our immediate family.

            The matter may seem trivial, but it isn’t; it happens more often than we realize.  As fathers and mothers God has placed us in a position of authority over our children. In this respect He expects us to impart knowledge of His person to our offspring, as well as to represent Him as far as reflecting his standards of justice (Deut. 6.6-9; Psalm 78.1-8). The shelter and care that we are supposed to provide, go alongside with the sense of security and protection that should be present in the lives of our sons and daughters until they grow up and mature into taking their own initiatives and having their own convictions. They should be comfortable in coming to us not only for sound teaching, but also for protection and vindication of their rights. Those of large families, and some of small ones too, know very well that everlasting harmony is an ideal far from being reached continually in a Christian home. There are fights and strife. Sin takes its toll, confiscating peace. We are certainly called upon, uncountable times, to mediate fights and to reestablish normal relationships. This is also a demand for the identification of sin—where is it occurring, who is displaying sinful behavior, who has the primary responsibility, who has to be protected and who has to be disciplined. We don’t think of ourselves too much under this capacity—as judges, but the calling comes, more frequently than we would like. Failure to adequately address these issues will demean the figure of the father and mother in the eyes of the children and will harm the lessons they intend to give. No matter how good the intentions, if the practice of parenthood is not up to God’s standards, the spoken words will suffer in efficiency. As someone has said, “what you are speaks so loud, I can’t hear what you say.”

            Below are some of the reasons why the task is so difficult and why we fail so often as God’s representative as rightful judges in our families:

1. Sin does not come in isolated chunks. Were it possible to easily isolate and identify a specific sin, our task, as judges, would be made easier, for we could then  deal with that sin, and with the sinner, in a proper and swift manner. But real life shows this to be a rare case. Sin has a way of contaminating and spreading itself beyond the original occurrence.  Actually, the Bible speaks of it almost as having a life of its own—from conception to birth (James 1.14, 15). In a home incident, the identification of sinful behavior in one single member of the family, is a frustrating and, many times, an impossible task. We are all too familiar with the shout: “He started it!” But a sinful action many times provokes a sinful reaction. Not always do Christian values and guidelines take control of our responses before these erupt, especially in the lives of the younger ones. Often deep regret settles in, afterwards, but much harm has already been done, in the mean time. So, if “someone started it” and someone else reacted, it is easy for us, confronting a chaos of sinful behavior, to simply come down hard on top of the whole brawl, distributing equal punishment to all. Even though sin is sin and all of it is abhorrent to God, we find in the Bible diverse degrees of gravity attributed to different sins and various kinds of punishment for them. The Westminster Confession of Faith, while recognizing that any sin is opposed to God’s holiness and subject to His wrath and judgment (Ch. VI, Sect. VI), also acknowledges that there is a gradation of sins (Questions 150 and 151, of Larger Catechism). Are we trying to discern that or do we indiscriminately and uniformly apply our own distorted version of justice?

2. We are slow at hearing and quick at talking. Many times we speak too soon. We think that we already know the answer and we proceed to sermonize. We should, instead, think of hearing in the sense of a court of justice (In judicial terminology a hearing is what takes place before the judgment. In it the judge hears the preliminary assessments of the case that will be tried. It establishes the ground work upon which judgment will be effected, after the trial.) Also, we often fail to realize that our children have difficulty expressing thoughts in a logical pattern. They do not always have the exact vocabulary to convey their facts and feelings. We are, sometimes, overtaken by impatience. Many times we say, “I don’t want to hear any more about this”, when there was need for some final words that were going to be said. We often leave our children frustrated in their communication. By doing so we proceed to judge without pertinent data, often confusing sermonizing with discipline, frequently addressing ourselves to a different issue than the one that was the occasion for the dispute. Harsh and wrong judgments can be the consequence of our impatience. We forget that God is “slow to anger” and that long-suffering is one of His attributes and a fruit of the Spirit (Gal. 5.22) that must be present in our lives.

3. Our quest for justice clutters the vindication of the right. This could be the other extreme position. If we have the Biblical vision of our duties, we fear promoting injustice. Many times we want to thoroughly search all angles, examine every corner, but in doing so we probe too much, and suddenly the innocent party becomes guilty by pressure. “OK”, we say, “you were wronged, but perhaps, possibly, you also did something wrong that caused the other person to react this way”. We are so aware of the universality of sin that we do not want to furnish any excuses for our children. Also, we do not want to be overprotective. These are well meaning counter reactions to a society that excuses the wrong, that is quick to judge, that sees some as saints and others as sinners, based on family bonds and not on God’s standards.  But we have no sanction from God to wrong the right and to be lenient with the offender.  I cannot help but think of David and how he fled to God, exposing his cause and pleading with him to vindicate his problems, against his enemies (Psalm 86.14-17; 140; 142.5,6; 143.1-9). Our children should be able to come to God in the same manner and they should also be able to expect wisdom on our part to rightfully judge with love. We must be aware, without encouraging self-righteousness, that they can be right, wrongly pulled into a fight, slandered, intimidated and bullied. If we are not careful we may promote insecurity and give to our own a permanent sense of failure—if when problems arise and they turn to us, they are never right, even when they actually are. Have you ever had a child come to you, and say: “Dad, why am I never right?”  Do they have the security, freedom and comfort to come to you and ask questions such as this?

4. Unwarranted reliance on time. “Time will take care of it”. With this we brush aside the urgent need for intervention. Nothing serves injustice more than slow justice. In the secular world, the slowness of due process of justice has been a matter of grave concern; most of the time criminals are not swiftly punished, and the ones falsely accused suffer unjustly. There is no reason that we should expect time to heal things in our home. The Bible gives us no warrant to expect inactivity from our part to be a solution of sinful situations. It commands us, even when the sinful action is sighted at the other end, to take the initiative in the contact, starting up the healing process (Matthew 18.15-16). Tardy discipline is as ineffective as no discipline at all. Are you passing on to “time” the responsibilities that are your own? Are you just seeking the easier path of non-confrontation, when action is demanded, by God’s precepts?

            There are no quick steps to instant wisdom. We should all be aware of these difficulties and constantly ask God to accompany us during these trying times. At the same time, we should be conscious of the imperceptible harm which we may be causing our children and our family when we fail either to assume the role of judge-in-the-home, or when we improperly perform our duties under this capacity. On many occasions it will be we ourselves, imperfect regents, who will be the ones that will have to cry for mercy, saying “I am sorry, forgive me,” to those that we have wronged, and to the Perfect Judge, our Lord Jesus Christ.

F. Solano Portela Neto